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Futuro do Trabalho · Educação e IA

A China aposentou 12 mil diplomas do passado. O Brasil ainda os emite.

Entre 2021 e 2025, as universidades chinesas revogaram ou suspenderam cerca de doze mil e duzentos cursos de graduação e criaram mais de dez mil novos no lugar. O movimento tocou mais de trinta por cento de toda a oferta de ensino superior do país. Os cortes se concentraram em áreas que o mercado chinês passou a tratar como saturadas ou defasadas, e as criações se concentraram em campos ligados às chamadas indústrias do futuro, incluindo cursos novos em inteligência incorporada, a fronteira entre IA e robótica. Não foi um ajuste de margem. Foi uma decisão de Estado sobre para qual mundo o país vai formar sua próxima geração.

12.200
cursos de graduação revogados ou suspensos na China entre 2021 e 2025, com mais de 10 mil novos criados no lugar — mais de 30% de toda a oferta de ensino superior do país.

No mesmo período, a China levou a inteligência artificial para dentro da escola básica. Em 2025, o Ministério da Educação publicou diretrizes para estruturar o ensino de IA de forma sistemática ao longo de toda a formação, do fundamental ao médio, saindo de pilotos locais para implementação nacional. Cidades como Pequim e Hangzhou tornaram as aulas de IA obrigatórias na rede pública. O desenho é progressivo. No fundamental, o objetivo é despertar interesse e construir noção básica. No fundamental dois, princípios técnicos e aplicação. No ensino médio, pensamento sistêmico e capacidade de inovar. A criança não aprende a usar uma ferramenta da moda. Aprende a raciocinar num mundo onde a máquina pensa junto.

Vale sublinhar um detalhe que costuma passar batido, porque ele desmente a caricatura. Essa adoção não foi feita sem freios. As diretrizes proíbem que estudantes do fundamental usem livremente ferramentas de geração de conteúdo por conta própria, e impedem que o professor terceirize à IA o papel central de ensinar. Ou seja, a China não colocou IA na escola no impulso do hype. Colocou com regra, com limite e com critério pedagógico. Adotou o futuro governando o futuro. Guarde essa ideia, porque ela vale para muito além da educação.

Adotou o futuro governando o futuro.

Agora vire o olhar para o Brasil. As projeções mais citadas indicam que cerca de dezesseis milhões de postos de trabalho podem desaparecer no país até 2030 por conta da automação, algo como quatorze por cento da força de trabalho atual. E os sinais de descompasso já são visíveis muito antes disso. Apenas quarenta por cento dos formados em cursos técnicos no Brasil trabalham de fato na área em que se formaram. Leia essa frase de novo. A maioria das pessoas que o país treinou para uma ocupação específica acabou em outro lugar, o que quer dizer que a formação e o mercado apontam para direções diferentes. Continuamos gastando anos e dinheiro público e privado preparando gente com esmero para vagas que estão encolhendo, enquanto as vagas que crescem seguem sem gente preparada.

40%
dos formados em cursos técnicos no Brasil atuam na área em que se formaram. A formação e o mercado apontam para direções diferentes.

O contraste não é sobre talento. O jovem brasileiro não é menos capaz que o chinês. É sobre decisão. Um país olhou para o mercado de trabalho que vem chegando e reescreveu o que ensina para caber nele, com a dureza de aposentar diplomas que já não se sustentam. O outro, em boa medida, ainda administra a educação como quem mantém um catálogo herdado, atualizando devagar e por exceção, formando para um mundo que está indo embora enquanto o mundo que chega bate à porta sem ser atendido. A diferença entre os dois não está no ponto de partida. Está na disposição de decidir o que aposentar.

A diferença não está no ponto de partida. Está na disposição de decidir o que aposentar.

É preciso honestidade intelectual aqui, e ela não enfraquece o argumento, fortalece. O modelo chinês tem custos reais e legítimos de crítica. Cortar com tanta agressividade cursos de humanidades, letras e artes carrega o risco de instrumentalizar a educação em excesso, de tratar a formação apenas como insumo econômico e de empobrecer o repertório crítico de uma geração. Pensamento humano, capacidade de julgamento e sensibilidade não são luxo num mundo de máquinas, são justamente o que sobra de insubstituível. Copiar o gesto chinês linha por linha seria um erro. Mas ignorar a lição de fundo seria um erro maior. A lição não é cortar humanidades. É ter a coragem de perguntar, com franqueza, para qual mundo estamos formando gente, e agir sobre a resposta em vez de adiar essa pergunta por mais uma década.

E é exatamente aqui que essa história deixa de ser sobre política educacional e passa a ser sobre qualquer organização. A mesma pergunta que separa a China do Brasil separa as empresas que vão prosperar das que vão definhar. Formar gente para empregos que estão saindo do mercado é a versão social de um erro que as empresas cometem todos os dias, quando insistem em processos, ferramentas e competências construídos para um mundo que já não existe. É o mesmo reflexo de quem mantém relatórios que explicam o passado quando o presente já exige decisão. O passado vira relatório. O futuro exige que alguém decida o que aposentar hoje.

Há ainda o paralelo mais direto, o da governança. A China não adotou IA na escola de qualquer jeito, adotou com regra e com limite. Essa é precisamente a tese que separa a adoção madura de IA da adoção imprudente, dentro ou fora da sala de aula. Inteligência sem governança é risco. Inteligência com governança é vantagem. Vale para um país que coloca IA na formação de crianças e vale para uma empresa que coloca IA no coração da operação. Adotar o futuro sem controle é abrir uma porta que não se sabe fechar. Adotar com governança é o que transforma a novidade em ativo.

Termino com uma nota de otimismo, porque o Brasil não está condenado ao papel de espectador, e a Mars existe justamente por acreditar nisso. Somos uma empresa brasileira de inteligência artificial construindo tecnologia de fronteira daqui, com ambição global. Se um país consegue reescrever em quatro anos o que ensina a uma geração inteira, uma empresa consegue reescrever em muito menos tempo como decide, como opera e para qual futuro se prepara. A pergunta que a China respondeu com uma reforma de Estado é a mesma que cada líder brasileiro pode responder na própria organização, a partir de amanhã. Para qual mundo você está se preparando, o que está indo embora, e o que você tem coragem de aposentar hoje. Da complexidade à clareza começa por essa decisão.

Fontes

South China Morning Post, sobre o corte de cerca de 12,2 mil cursos de graduação na China entre 2021 e 2025. Global Times e Ministério da Educação da China, sobre as diretrizes de ensino de IA na educação básica em 2025. McKinsey Brasil, sobre a projeção de cerca de 16 milhões de postos de trabalho em risco no país até 2030 e o dado de que apenas 40% dos formados em cursos técnicos atuam na área de formação. Dados públicos capturados em agosto de 2026.

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